O primeiro dia em Turim foi um dia de resolver questões burocráticas em relação a cidadania italiana. Como o meu vôo fez escala na França, eu recebi o carimbo no passaporte no Aeroporto de Paris e existe na Europa o Acordo Schengen, onde os vôos realizados entre aeroportos desses países (França, Itália, Alemanha, Suiça, Holanda...) são considerados vôos domésticos, portanto não precisei passar por imigração na Itália e, consequentemente, não recebi carimbo na Itália. Que pena!
Bom, pelo fato de eu não ter o carimbo da imigração italiana, eu preciso de uma declaração de presença na Itália, para eu poder solicitar a residência em Turim. O tempo máximo para fazer essa declaração são oito dias após a entrada no país. O mais demorado no processo de cidadania italiana é a comprovação da residência, leva de 60 a 90 dias para sair. É preciso solicitar, aguardar o fiscal comprovar que você realmente vive no endereço declarado e depois aguardar mais. Por isso queríamos o mais rápido possível solicitar a residência, até porque em Agosto tudo fica mais lento na Itália, por ser o mês de férias aqui. Para se ter uma idéia, quase todas as lojas ficam fechadas por uns 15 dias ou mais.
A Surya não precisava dessa declaração de presença, pois o vôo dela foi direto de São Paulo à Milão, então o carimbo da imigração italiana é suficiente para solicitar a residência. Saímos para resolver o meu problema. Como o nosso apartamento é bem no centro, fizemos tudo a pé. Eu sabia que tinha que ir na Questura da cidade, tipo a polícia. Primeiro fui na Prefeitura perguntar e me disseram que eu deveria ir no ufficio lìmigrazione que era a umas 7 quadras dali. Ok, fomos. Chegamos lá, quase não tinha ninguém, inclusive para dar uma informação, peguei uma senha e ficamos aguardando. Passados uns 5 minutos sem ninguém ser chamado, saiu uma mulher de uma sala, que parecia funcionária daquele ufficio. Fui perguntar, com toda educação, se eu estava no lugar certo, mostrei o papel que eu deveria apresentar e a mulher já saiu soltando as patas: eu não posso responder tudo que é informação, tem um local apropriado pra isso no andar térreo, você deve perguntar lá. Respondi, mentindo, que já havia estado lá embaixo e que me mandaram ali pra cima, pedi pra ela olhar meu papel e ela deu uma olhadinha e fez uma cara de quem não sabia do que se tratava. Fui embora, pois ali realmente não parecia ser o local correto.
Voltamos caminhando pra Prefeitura e saí perguntando, tiramos uma senha num atendimento e a Surya conseguiu perguntar aonde era o local correto. Deveríamos ir na Questura principal, que deveria ser a umas 5 quadras dali. Aquela altura, sol na cabeça, já estava cansado de tanto caminhar, mas lá fomos nós. Chegamos no prédio da Questura, íamos entrando quando um oficial nos parou e perguntou, educadamente, o que queríamos ali. Respondi que eu vim do Brasil, mas parei na França, etc. e ele pediu para ver a minha folhinha. Mostrei e ele disse que eu deveria ir no ufficio lìmigrazione, onde eu havia estado antes. Disse isso a ele, o cara pensou um pouco e pediu que a gente o acompanhasse. Chegamos numa sala, aguardamos um pouco e saiu um funcionário da sala, bem humorado fez algumas perguntas e disse com muita autoridade que nós deveríamos nos dirigir a Via Verona, 4. Como eu não tinha aonde anotar ele escreveu num papel e nos deu. Quando ele disse que eu tinha oito dias para fazer, eu tive a certeza que ele sabia onde era. No entanto, nós teríamos que deixar pro dia seguinte, pois já estaria fechado. Esse tipo de coisa aqui na Itália funciona até às 13:00. No final do dia liguei pro Giuseppe, que é quem está dando a residência pra gente, e disse que deveria ir nesse lugar amanhã e achava que logo depois de eu conseguir essa declaração, nós já poderíamos solicitar a residência. Fiquei de ligar pra ele quando eu já tivesse com a minha declaração. Ele disse para nós irmos cedo nesse lugar da Via Verona, pois tinha sempre muita gente.
Acordamos umas 8:00 e chegamos na Via Verona umas 8:30. Entramos no salão e, meu Deus! Tinha muita gente. Umas três filas enormes e gente de todo o tipo, os mais diferentes idiomas, uma gritaria. Aquilo era uma zona. Tinha uma fila para pegar uma senha, na qual todos deveriam entrar, depois tinha outra para informações e mais uma para entrar nos guichês. Que roubada! Entramos na primeira fila e logo já começou uma discussão entre a funcionária e alguém que, na minha interpretação, estava esperando há muito tempo na fila, sei lá, era uma gritaria. Daqui a pouco a mulher que dava as senhas saiu dali braba, ficou alguns minutos fora e voltou com outro cara para ajudá-la a conter os mais exaltados. Depois de uns 20 minutos pegamos nossa senha, para aguardar a outra fila, agora a das informações. Esse salão era bem precário, cheirava mal, a salinha da informação tinha todos os avisos escritos à mão, todo torto. Tinha várias famílias, crianças pequenas chorando, gente muito feia. Aquele ufficio é onde se faz permissão para trabalhar, e é onde os imigrantes ilegais tentam se tornar imigrantes legais, essa foi a minha visão da coisa.
Aguardamos uma hora e pouco, um tempo em pé, depois sentado. Tinha um guri que ficava trocando senhas com as pessoas. Ele dava uma senha que já tinha passado e pegava uma que ainda demoraria mais tempo. Não consegui entender porque ele fazia aquilo, mas ele entrava e saía da sala de informações, sempre com alguma família. Ele tinha uma cara de árabe, deveria ser marroquino, aqui tem muito. Enfim, entramos na sala, tinha mais uma fila pequena dentro da sala e fomos atendidos. Expliquei a situação e eles sabiam do que se tratava. Ainda bem. Demorou mais uns vinte minutos e, enfim saí com a minha Declaração de Presença. Que vitória! Se eu soubesse que seria daquele jeito, teria mês esforçado mais para pegar um vôo direto. Ainda mais com a confusão que deu nos meus vôos.
Quando saímos de lá, passamos na casa do Giuseppe, apenas para falar que teríamos que deixar para segunda-feira a residência, pois ele teria que trabalhar ao meio-dia e não daria tempo para tudo. Acordamos ele, tomamos um café na sua casa e fomos pra nossa casa.
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